O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune crônica. Isso significa que o sistema imunológico, que normalmente protege o corpo contra infecções, começa a atacar os próprios tecidos do corpo, causando inflamação e danos em várias partes do corpo, incluindo a pele, articulações, rins, pulmões, coração e o sistema nervoso.
Quem é Mais Afetado?
O lúpus afeta principalmente mulheres, especialmente aquelas entre 20 e 30 anos. Embora a causa exata do lúpus não seja conhecida, fatores genéticos, hormonais e ambientais (como a exposição ao sol) podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Mulheres afrodescententes são mais frequentemente afetadas do que mulheres brancas, e a doença também pode ser mais grave nelas.
Sintomas Comuns
Os sintomas do lúpus podem variar muito de pessoa para pessoa e podem ser leves ou graves. Entre os sintomas mais comuns estão:
- Fadiga: um cansaço extremo que não melhora com o descanso.
- Febre: pode ser um sintoma inicial de um surto de lúpus.
- Dor e inchaço nas articulações: especialmente nas mãos e nos pés.
- Erupções cutâneas: manchas vermelhas, especialmente uma erupção em forma de borboleta no rosto (eritema malar).
- Sensibilidade ao sol: a exposição ao sol pode causar erupções cutâneas ou piorar as existentes.
- Dor no peito: ao respirar profundamente, devido à inflamação do revestimento dos pulmões.
- Nefrite: o lúpus pode causar inflamação nos rins, levando a problemas graves de função renal.
- Anemia: diminuição dos glóbulos vermelhos, que pode causar cansaço e fraqueza.
- Alterações neurológicas: como convulsões, dores de cabeça importantes, e em casos graves, psicose.
Diagnóstico
O diagnóstico de lúpus pode ser desafiador, pois os sintomas podem imitar muitas outras doenças. Os médicos geralmente procuram um conjunto específico de sintomas e realizam exames de sangue. Alguns dos testes comuns incluem:
- Fator Antinuclear (FAN): um teste de sangue que, se positivo, sugere a presença de uma doença autoimune.
- Anticorpos anti-DNA de cadeia dupla (anti-DNA ds) e anti-SM: mais específicos para lúpus.
- Complemento no sangue: comumente estes testes estão diminuídos no lúpus.
- Exames de sangue e urina: para avaliar a função renal e detectar possíveis problemas.
- Biópsia de pele ou rim: em casos específicos, para confirmar a inflamação causada pelo lúpus.
Lúpus e Gravidez
A gravidez em mulheres com lúpus deve ser cuidadosamente planejada e monitorada. Idealmente, a doença deve estar controlada por pelo menos seis meses antes de tentar engravidar. Isso ajuda a reduzir os riscos de complicações tanto para a mãe quanto para o bebê. Aqui estão alguns dos principais aspectos a serem considerados:
Planejamento e Monitoramento
- Planejamento pré-concepcional: antes de engravidar, é importante discutir com seu médico a melhor maneira de controlar o lúpus. Algumas medicações podem precisar ser ajustadas ou interrompidas.
- Acompanhamento médico: durante a gravidez, consultas frequentes com seu obstetra e reumatologista são essenciais para monitorar a saúde da mãe e do bebê.
Fertilidade
Inicialmente, assim como em outras doenças autoimunes sistêmicas, a fertilidade pode ser considerada normal e não haveria maior dificuldade para gestar. No entanto, existe um risco maior de infertilidade para as pacientes que utilizaram ciclofosfamida no tratamento das formas graves da doença.
Complicações Potenciais
- Parto Prematuro: bebês nascidos antes das 37 semanas de gestação.
- Aborto Espontâneo: perda do bebê antes das 20 semanas.
- Óbito Fetal: perda do bebê após as 20 semanas.
- Pré-Eclâmpsia: uma condição grave que causa pressão alta e danos a outros órgãos.
- Restrição de crescimento intrauterino: o bebê pode crescer mais lentamente do que o esperado.
- Ativação do lúpus: a doença apresenta manifestações durante a gravidez.
- Lúpus neonatal: complicações do bebê resultantes de anticorpos maternos que atravessam a placenta.
As pacientes com síndrome antifosfolipídeo (SAF) associada devem receber um cuidado especial, pois a associação entre as duas doenças pode potencializar o risco para a gestação.
Tratamento Durante a Gravidez
Alguns medicamentos para o lúpus são seguros durante a gravidez, enquanto outros devem ser evitados. A seguir, alguns exemplos:
- Hidroxicloroquina: Geralmente segura e pode ser mantida durante a gravidez. Ajuda a controlar os sintomas do lúpus e pode reduzir o risco de surtos.
- Corticosteroides: Podem ser usados para controlar os surtos, mas com cautela, devido aos possíveis efeitos colaterais tanto para a mãe quanto para o bebê.
- Imunossupressores: Alguns, como azatioprina, podem ser usados com cuidado, enquanto outros, como ciclofosfamida, metotrexato e micofenolato de mofetila, devem ser evitados devido ao risco de malformações congênitas.
Cuidados Pré-concepcionais
Mulheres com lúpus devem usar métodos contraceptivos até que a doença esteja bem controlada e a medicação adequada seja estabelecida. Os anticoncepcionais contendo apenas progesterona são geralmente preferidos, especialmente para aquelas com risco elevado de trombose.
Efeitos da Gravidez no Lúpus
A gravidez pode aumentar a atividade do lúpus em algumas mulheres, embora isso nem sempre aconteça. Sintomas leves, como problemas de pele e articulações, são os mais comuns, mas complicações mais graves também podem ocorrer. É crucial que a gestante seja monitorada de perto por uma equipe médica especializada durante toda a gravidez.
Parto
A via de parto deve ter indicações obstétricas habituais, sendo preferencial o parto vaginal. Não há indicação de cesariana devido apenas ao diagnóstico de lúpus, lembrando que esta via de parto possui maior incidência de complicações que o parto normal.
Cuidados Pós-Parto
Após o parto, é importante continuar o acompanhamento médico, pois o período pós-parto pode ser um momento de maior risco para surtos de lúpus. A mãe deve ser monitorada de perto e as medicações ajustadas conforme necessário.
Amamentação
A amamentação é possível para a maioria das mulheres com lúpus, mas é importante discutir com seu médico quais medicações são seguras durante a amamentação. Alguns medicamentos podem ser transmitidos pelo leite materno e podem não ser seguros para o bebê.
Conclusão
Com planejamento cuidadoso e acompanhamento médico adequado, muitas mulheres com lúpus podem ter uma gravidez bem-sucedida. A chave é garantir que a doença esteja bem controlada antes e durante a gravidez, e que a paciente esteja ciente dos riscos e das medidas preventivas necessárias. É importante manter um acompanhamento com uma equipe médica especializada e seguir todas as recomendações para minimizar os riscos e garantir a melhor saúde possível para a mãe e o bebê.
Referências:
Society for Maternal Fetal Medicine – Systemic lupus erythematosus in pregnancy